O futebol de torcedor chegou ao fim. O Futebol (Ultimate Experience) só começou
Acabou (pelo menos para a maior parte dos envolvidos) mais uma temporada daquilo que muitos chamam de futebol no Brasil. Mas talvez seria mais certo dizer que terminou o ano fiscal ou coisa assim. Isso por que não existe mais aquele futebol. Essa afirmação, que pode parecer uma loucura ou uma reclamação saudosista, posso garantir que não é nem uma coisa, nem outra. É apenas a percepção das transformações que se processaram nesse esporte durante sua história particularmente nos últimos 20 ou 30 anos, especialmente no Brasil, mas não só.
Talvez para explicitar e esclarecer essa transformação deveríamos encontrar um nome diferente, possivelmente criado durante um brainstorm de uma equipe de marketing internacional, correspondendo à perspectivas futuras de investidores e acionistas de expansão de negócio, apoiado por planilhas e pesquisas de mercado, a partir de experiências de rebranding de alguma empresa que foi adquirida por um novo grupo controlador, para isso que ainda hoje move multidões para espaços de espetáculo, gera renda e comércio e mantém o trabalho de muita gente em torno de um ecossistema significantemente grande e capilarizado. Enquanto não existe esse “reposicionamento da marca no mercado”, ficamos com futebol mesmo.
O futebol nos últimos anos tem sido pensado como espetáculo. Não no sentido da apresentação do talento que consegue fazer grandes jogadas e movimentos estonteantes com a bola nos pés, mas no conjunto do cenário, com a experience antes e depois do jogo.

Não existem mais estádios, mas arenas multi-uso que, por alguma determinação financeira aleatória, aceita jogos de futebol (um comentário com algum amargor irônico e ressentido, eu sei). As equipes, no modelo associativo, de fato, não existem mais. São organizações que articulam o show, a espetacularização do evento, com luzes, show pirotécnico, objetos “exclusivos” e significantes e toda sorte de elementos que vem a cavaleiro do embate entre empregados – digo, jogadores – das duas corporações-times em campo.
O futebol surgiu associativo. Invariavelmente um grupo com algum interesse ou atividade em comum se reunia para empreender um tipo de lazer e de sociabilidade. Muitos times ao redor do mundo (e no Brasil não foi diferente) surgiram a sombra de galpões, chaminés, garagens ou oficinas.

A medida que esse lazer se profissionalizou, também mudaram as relações dos indivíduos com esses times. Mas eles ainda representavam relações de identidade e de comunidade – e os campeonatos representavam então disputam mais simbólicas, assim como os jogos eram narrados quase como ficções guerreiras, com cenas de embates heroicos e momentos de êxtase quase religioso. O grande atacante, o gol ou a defesa épica, o zagueiro trapalhão ou o menino que saiu de uma condição critica para tornar-se modelo e exemplo de sucesso eram personagens que povoavam a memória e as narrativas coletivas.
Aos poucos as equipes ganhavam reconhecimento não apenas de torcedores apaixonados ou dos adversários sedentos por superar “o outro”, mas também de empresários que viam naqueles indivíduos e na sua associação a possibilidade de lucrar. E para o lucro ser eficiente é necessário que se organize e se torne eficiente a produção – no caso, do jogo e tudo que aparece ao redor dele.
Nos anos 1990-2000 começam a aparecem as grandes experiências para fazerem das entidades futebolisticas, invariavelmente falidas, em cases de administração de sucesso, como padarias falidas que viram redes de fast-food lucrativas
E então aparecem as grandes experiências para fazerem das entidades futebolisticas – invariavelmente falidas por administrações tão eficazes quanto um grupo de raposas a gerenciar um galinheiro – em empresas de grande sucesso e administração exemplar (o que nem sempre conseguem). Surgem as SAFs (Sociedades Anônimas de Futebol) que possibilitam que o departamento futebol de um clube – em todas as suas instâncias e peculiaridades – possam ser destacadas das atividades associativas e sociais do mesmo clube, e sejam capitalizadas. Também surgem os clubes-empresas, esses ainda mais ligados com a lógica business, surgidos completamente do zero ou tentando transformar clubes falidosem grandes cases de sucesso (do mesmo modo que se compra uma padaria falida e a transforma em rede de fast-food lucrativa), pensando unicamente em gerar peças (jogadores) que possam ser revendidas com lucro suficiente para premiar os investidores e manter a roda girando.
Essa configuração tem paralelos em diversas atividades esportivas ao redor do mundo, e não é pecado ou uma impropriedade para o esporte. Uma equipe de Formula 1 mudar de lugar não causa – em geral – uma comoção significativa, tão pouco a mudança de um time (muito acertadamente chamado de franquia) da NBA ou da NFL de lugar.

As novas configurações do futebol desconectam associações (e mesmo comunidades) de suas equipes. E é nesse ponto que apoio o que penso. O Flamengo, o Palmeiras, o Corinthians ou qualquer equipe que passe a SAF (ou qualquer estrutura que seja) passa a ser uma empresa como outra qualquer. E nesse sentido, não precisam de torcedores, mas sim de consumidores – talvez apaixonados pela marca – e nesse sentido não importa mais seu lócus de atuação, assim como ocorre com times europeus que tem o espetáculo pensado para a transmissão (devidamente cobrada pela exclusividade via “TV própria da equipe” ou via streaming, mas com pequenas degustações em TV aberta ou canais de assinatura).



E assim, um acontecimento associativo deixa de ter esse papel para ser um evento televisivo e de consumo. E de repente estamos diante de um jogo entre o TIM (com a camisa que foi do Flamengo) contra o NacionalBet (com a camisa que um dia representou trabalhadores do Bom Retiro, Brás e Belém e que recebia o nome de Corinthians). Ainda vão ter apaixonados, mas qual o objeto desse louco amor? Em tempos líquidos (Bauman rulez) o quão fluido pode ser o interesse pelos protagonistas da velha encenação de guerra que tem duas traves e uma bola como meio de determinar o vencedor?
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