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Montagem entre a foto da seleção campeã do mundo de 1962 e da equipe campeã do mundial interclubes da FIFA de 2025

O futebol de torcedor chegou ao fim. O Futebol (Ultimate Experience) só começou

Acabou (pelo menos para a maior parte dos envolvidos) mais uma temporada daquilo que muitos chamam de futebol no Brasil. Mas talvez seria mais certo dizer que terminou o ano fiscal ou coisa assim. Isso por que não existe mais aquele futebol. Essa afirmação, que pode parecer uma loucura ou uma reclamação saudosista, posso garantir que não é nem uma coisa, nem outra. É apenas a percepção das transformações que se processaram nesse esporte durante sua história particularmente nos últimos 20 ou 30 anos, especialmente no Brasil, mas não só.

Talvez para explicitar e esclarecer essa transformação deveríamos encontrar um nome diferente, possivelmente criado durante um brainstorm de uma equipe de marketing internacional, correspondendo à perspectivas futuras de investidores e acionistas de expansão de negócio, apoiado por planilhas e pesquisas de mercado, a partir de experiências de rebranding de alguma empresa que foi adquirida por um novo grupo controlador, para isso que ainda hoje move multidões para espaços de espetáculo, gera renda e comércio e mantém o trabalho de muita gente em torno de um ecossistema significantemente grande e capilarizado. Enquanto não existe esse “reposicionamento da marca no mercado”, ficamos com futebol mesmo.

O futebol nos últimos anos tem sido pensado como espetáculo. Não no sentido da apresentação do talento que consegue fazer grandes jogadas e movimentos estonteantes com a bola nos pés, mas no conjunto do cenário, com a experience antes e depois do jogo.

Local de FAN Festival durante a Copa do Qatar 2022. Foto Aljazeera (Veja reportagem – em inglês – clicando aqui)

Não existem mais estádios, mas arenas multi-uso que, por alguma determinação financeira aleatória, aceita jogos de futebol (um comentário com algum amargor irônico e ressentido, eu sei). As equipes, no modelo associativo, de fato, não existem mais. São organizações que articulam o show, a espetacularização do evento, com luzes, show pirotécnico, objetos “exclusivos” e significantes e toda sorte de elementos que vem a cavaleiro do embate entre empregados – digo, jogadores – das duas corporações-times em campo.

O futebol surgiu associativo. Invariavelmente um grupo com algum interesse ou atividade em comum se reunia para empreender um tipo de lazer e de sociabilidade. Muitos times ao redor do mundo (e no Brasil não foi diferente) surgiram a sombra de galpões, chaminés, garagens ou oficinas.

Equipe do “Villa Izabel Futebol Clube”, um dos muitos clubes operários surgidos na década de 1910 no Rio de Janeiro. Fonte: O Malho, outubro de 1917

A medida que esse lazer se profissionalizou, também mudaram as relações dos indivíduos com esses times. Mas eles ainda representavam relações de identidade e de comunidade – e os campeonatos representavam então disputam mais simbólicas, assim como os jogos eram narrados quase como ficções guerreiras, com cenas de embates heroicos e momentos de êxtase quase religioso. O grande atacante, o gol ou a defesa épica, o zagueiro trapalhão ou o menino que saiu de uma condição critica para tornar-se modelo e exemplo de sucesso eram personagens que povoavam a memória e as narrativas coletivas.

Aos poucos as equipes ganhavam reconhecimento não apenas de torcedores apaixonados ou dos adversários sedentos por superar “o outro”, mas também de empresários que viam naqueles indivíduos e na sua associação a possibilidade de lucrar. E para o lucro ser eficiente é necessário que se organize e se torne eficiente a produção – no caso, do jogo e tudo que aparece ao redor dele.

Nos anos 1990-2000 começam a aparecem as grandes experiências para fazerem das entidades futebolisticas, invariavelmente falidas, em cases de administração de sucesso, como padarias falidas que viram redes de fast-food lucrativas

E então aparecem as grandes experiências para fazerem das entidades futebolisticas – invariavelmente falidas por administrações tão eficazes quanto um grupo de raposas a gerenciar um galinheiro – em empresas de grande sucesso e administração exemplar (o que nem sempre conseguem). Surgem as SAFs (Sociedades Anônimas de Futebol) que possibilitam que o departamento futebol de um clube – em todas as suas instâncias e peculiaridades – possam ser destacadas das atividades associativas e sociais do mesmo clube, e sejam capitalizadas. Também surgem os clubes-empresas, esses ainda mais ligados com a lógica business, surgidos completamente do zero ou tentando transformar clubes falidosem grandes cases de sucesso (do mesmo modo que se compra uma padaria falida e a transforma em rede de fast-food lucrativa), pensando unicamente em gerar peças (jogadores) que possam ser revendidas com lucro suficiente para premiar os investidores e manter a roda girando.

Essa configuração tem paralelos em diversas atividades esportivas ao redor do mundo, e não é pecado ou uma impropriedade para o esporte. Uma equipe de Formula 1 mudar de lugar não causa – em geral – uma comoção significativa, tão pouco a mudança de um time (muito acertadamente chamado de franquia) da NBA ou da NFL de lugar.

Escudos (ou logos) do RAIDERS, equipe de futebol americano que já passou por Oakland, Los Angeles e hoje está em Las Vegas

As novas configurações do futebol desconectam associações (e mesmo comunidades) de suas equipes. E é nesse ponto que apoio o que penso. O Flamengo, o Palmeiras, o Corinthians ou qualquer equipe que passe a SAF (ou qualquer estrutura que seja) passa a ser uma empresa como outra qualquer. E nesse sentido, não precisam de torcedores, mas sim de consumidores – talvez apaixonados pela marca – e nesse sentido não importa mais seu lócus de atuação, assim como ocorre com times europeus que tem o espetáculo pensado para a transmissão (devidamente cobrada pela exclusividade via “TV própria da equipe” ou via streaming, mas com pequenas degustações em TV aberta ou canais de assinatura).

Caso emblemático no Brasil, camisas do Bragantino (hoje Red Bull Bragantino) em 1990 [clube] e 2024 [clube-empresa]
Anúncio no twitter da emisora FOX Sports da troca do escudo do Bragantino para “a nova identidade”

E assim, um acontecimento associativo deixa de ter esse papel para ser um evento televisivo e de consumo. E de repente estamos diante de um jogo entre o TIM (com a camisa que foi do Flamengo) contra o NacionalBet (com a camisa que um dia representou trabalhadores do Bom Retiro, Brás e Belém e que recebia o nome de Corinthians). Ainda vão ter apaixonados, mas qual o objeto desse louco amor? Em tempos líquidos (Bauman rulez) o quão fluido pode ser o interesse pelos protagonistas da velha encenação de guerra que tem duas traves e uma bola como meio de determinar o vencedor?

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